quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Um fim-de-semana fora de Delhi

Esta noite vou viajar. Será minha primeira viagem aqui na Índia e a primeira sozinha em muitos anos – sem contar minha vinda pra cá. Vou a Benarés, um dos lugares mais sagrados da Índia e um dos mais místicos do planeta. É lá onde os peregrinos hinduístas vão para lavar seus pecados no Rio Ganges. E também é considerado um lugar sagrado para morrer. Há cerimônias de cremação nos “Ghats” na beira do rio, que dizem que é bastante impressionante para quem nunca viu um corpo arder em chamas, como eu.

Infelizmente, o Ganges é mais poluído que o Tietê e não molhar nem o pé é o que todos recomendam, pela quantidade (literal) de merda que há na água... Há várias ONGs tratando de despoluir o rio sagrado dos indianos, mas o trabalho levará anos e consumirá milhões de dólares. Assim que não lavarei meus pecados no Ganges por puro excesso de coliformes fecais!

Saio de Delhi esta noite às 20h30 e serão 12 horas de viagem. O trem não é como este aí da foto não, paguei um bilhete na "primeira classe" C, que dizem que é confortável e eu vou dividir a cabine com “apenas” 3 pessoas mais! hehehe Tirei essa foto na estação de Old Delhi porque aqui é impressionante como todos os meios de transportes, todos os lugares públicos estão lotados de gente! Tem gente nas janelas e portas dos trens e ônibus; tem Oto que leva 7 pessoas ou mais; tem fila pra tudo; tem sempre alguém te esbarrando... é muito indiano, meu Deus! Planejamento familiar urgente neste país!



Escolhi Benarés porque quero ver essa “espiritualidade” dos hinduístas e ver os templos tão famosos e inexistentes aqui em Jamia. Quero sair do meu reduto muçulmano e também ver como é o interior da Índia. Dizem que quando você vai para o interior e logo volta a Delhi, passa a achar a capital tão moderna quanto Nova York. Não sei ainda, mas conto tudo na terça-feira, quando estarei de volta (serão 3 dias sem atualizar o blog, ok?). E prometo muitas fotos. Dizem também que é um dos lugares mais espetaculares para fotografias, pelas cores, rituais, roupas, etc.

Mudando de assunto, esta quinta-feira foi um dia muito especial aqui. Tive uma conversa longa com meu coordenador daqui que me deixou mais que envaidecida. Mais que nunca, acredito piamente que fiz a escolha certa ao vir pra Índia... Além da experiência de vida inesquecível, estou começando a gostar muito da vida acadêmica e de passar meus dias lendo e escrevendo.

Um bom fim-de-semana para vocês e até terça!

PS: Minha mãe e meu irmão Pedro são ótimos RP deste blog. Estou adorando as novas visitas de gente que não vejo ou falo há um tempão, como minha tia Nazareth, minha cunhada Marina e o Zum!

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Os dias passam...


A Índia é um país que não prima pela limpeza. Aqui, além de não existir vassouras que varrem de verdade como mostrei no mês passado, eles jogam qualquer lixo na rua sem a menor dó. De guimba de cigarro a lata de refrigerante, embalagem de comida, etc. Por isso me surpreende encontrar placas como esta junto às placas de trânsito. A campanha contra as sacolas de plástico – mais que lógica e correta – está por toda Delhi. E a maioria das lojas trabalha com as menos poluentes sacolas de papel. Nunca vi nada parecido no Brasil ou em Barcelona. Mas quando eu voltar, vou começar minha própria campanha e as sacolas do Caprabo ou Carrefour estão com os dias contados na minha casa!

Outro que está com os dias contados é este blog. Ontem recebi uma “queixa” de uma pessoa que lê o blog diariamente sobre o porquê de eu escrever tão pouco sobre meu marido, sendo que ele sempre deixa lindos recados (verdade!) para mim. O negócio é que o blog é exclusivamente sobre minha experiência na Índia como brasileira e jornalista. Não interessa aqui minha vida pessoal, não é um “Meu querido diário” online. Já disse que minha vida não daria um blog, assim que, dia 1º de dezembro, quando volto a Barcelona, o blog deixará de ser publicado pelo simples fato de não ter mais razão de existir, ok?

Ontem (quarta) foi um dia produtivo e engraçado. Pra ser sincera, é a primeira vez que escrevo este blog de ressaca! Li muito de manhã, fui à universidade, de tarde entrevistei um editor sênior do The Times of India e visitei a redação. Mr. Shankar escreve sobre economia e globalização e a entrevista foi super interessante, conversamos por quase 1 hora e meia e é ótimo quando o entrevistado realmente tem o que dizer. Fiquei com ainda mais saudade do dia-a-dia do jornalismo!

Depois da entrevista, fui a uma agência de viagem em Connaught Place para acertar umas coisas das andanças que farei no mês que vem. Demorou horas, porque tudo aqui é complicado e segue verdadeiros “rituais”. Depois tinha que esperar uns amigos para ir jantar e resolvi fazer hora no T.G.I. Friday (ok, ninguém merece esse pedaço de América na Índia), mas estava do lado e era o Happy Hour, tudo 2 x 1. Pedi uma cerveja e estava lendo meu livro sobre Comunicação de massa na Índia quando um catalão me pediu o isqueiro! Um catalão!!!!! E que mora ao lado da minha casa!!!!

Claro que tomamos várias cervejas juntos contando os perrengues nossos aqui. Ignacio esteve aqui por 3 semanas viajando pelo Norte do país e voltou ontem mesmo pra Barcelona. Era sua última noite aqui. Combinamos de encontrar-nos em Barcelona para ver as fotos, vamos ver se não é apenas promessa furada de viajantes longe de casa. Morri de ri quando ele falou que o primeiro que vai fazer ao chegar na Catalunya é tomar um banho com desinfetante e água sanitária e comer um bom pedaço de carne com um bom vinho! Exatamente o que penso fazer quando regressar!

É isso. Esta foto ai é para que Rodrigo e minha mãe vejam que estou comendo e não emagreci mais. Saudável, ok? E sempre com a mesma cortina vermelha e horrível no fundo. hehehe
Também tenho que confessar que morri de “inveja” quando o Rodrigo me ligou ontem do restaurante da Baby.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Um só Brasil e muitas Índias e Espanhas

Eu acho que os brasileiros não têm idéia do privilégio que é nascer em um país tão grande e tão “uniforme”. Para um espanhol, um belga ou um indiano deve ser impossível conceber a idéia de um país esse tamanho com apenas um idioma e sem conflitos religiosos ou tentativas sérias de independência de alguma região.

Falo isso porque vivo na Espanha, ou melhor, na Catalunya, e sei como o conceito de nação simplesmente não existe por lá. Se você pergunta a um “espanhol” de onde ele é, a resposta nunca será objetivamente “Espanha”. Ele vai dizer: sou catalão, sou basco, sou galego, sou andaluz, mas nunca espanhol. Ao contrário, quando se pergunta a um carioca, paulistano, capixaba, mineiro, potiguar de onde ele é, a resposta será: do Brasil, sou brasileiro.

Na Bélgica eles enfrentam um grave problema com a tentativa de independência da região de Flandres e a “Bélgica¨ pode simplesmente deixar de existir como país num futuro próximo. Há vários outros exemplos na Europa. E aqui na Índia, um país tão grande como o Brasil, eles falam mais de 100 idiomas e dialetos diferentes. Não estou falando de diferenças culturais não, que são sempre bem-vindas, mas de diferenças que, para eles, são irreconciliáveis, como a religião.

Antes de vir pra cá, li pra caramba sobre o hinduísmo, e acabei vindo morar num bairro muçulmano, estudando numa universidade muçulmana e não tendo nenhum contato com os hindus – ironia das ironias. Todas aquelas coisas que li e vi em filmes sobre os hábitos, a adoração à vaca e outros animais, comida vegetariana, tradições, templos, casamentos, tudo isso não faz parte da minha realidade aqui.

Estou escrevendo isso para contar a experiência de um amigo, Monis, e da americana Olga que conheci ontem. Monis tem 21 anos, estudou História e faz um Master em Jornalismo. Ele se auto-define como um muçulmano “híbrido”, o que significa um muçulmano “moderno”, que questiona algumas regras que não está de acordo. Ele não usa aquela gorra branca, não tem barba ou veste aquelas túnicas todos os dias. No entanto, sente muito orgulho da sua identidade, reza as 5 vezes por dia, jejuou durante o Ramadan e lê o Alcorão diariamente. A parte moderna dele e da família é que eles não se importam em lidar com pessoas de outras religiões, por exemplo, me receberam na casa deles super bem, mesmo sabendo que eu sou católica (?!).

Mas nunca tinha estado com ele fora de Jamia e, no último fim-de-semana, fomos com uns amigos a um centro comercial fora do reduto muçulmano. O cara simplesmente pirou! Ele se sentiu super mal lá, como se todos estivessem olhando pra ele, meio com mania de perseguição. Ninguém estava olhando pra ele e é impossível adivinhar que é muçulmano ao olhar pra ele apenas, porque nem a marca na testa de tanto rezar e encostar o rosto no chão ele tem.

Daí eu comecei a achar que ele não é tão “aberto” e moderno como fala. O desconforto dele é um exemplo claríssimo de porque a tensão entre muçulmanos e hindus não vai ter fim: mesmo que não seja declarada, ela existe e nasce com a pessoa; além disso, a aceitação é nula, o outro é e sempre será um “outsider”. Com certeza, ele não odeia ninguém, é pacífico e do bem, mas não lida bem com a diferença, não se sente bem fora de seus domínios. E imagino que do outro lado aconteça a mesma coisa. Pra piorar tudo, ao voltar pra casa, não conseguíamos nenhum Oto ou táxi porque os motoristas diziam que não entravam em Jamia à noite. Aí foi a desculpa que ele precisava para se sentir realmente perseguido!

Já a Olga é filha de japonesa com iraniano e também é muçulmana, mas não pratica a religião. Ela não reza, não freqüenta mesquitas e não jejua. No entanto, tem sobrenome muçulmano, o que sempre dificulta sua entrada nos EUA, sendo que ela nasceu lá e é cidadã americana! Olga se casou no ano passado com Ajay, um canadense filho de indianos, que é hinduísta. Um casamento como este é mais que incomum entre os indianos. Eles sempre esperam que os filhos se casem com alguém da mesma religião – e se for da mesma região, ainda melhor.

Olga e Ajay se casaram no civil em Nova York, como qualquer casal “normal”. E se casaram depois no Canadá seguindo as tradições hinduístas. Ela enfrentou preconceito até para comprar as roupas para a cerimônia, porque a indiana dona da loja em Nova York considerava uma traição vender um vestido de casamento hinduísta a uma muçulmana...

Tá vendo como a nossa vida é “fácil” sem esses conflitos étnicos / religiosos? Todos esses “problemas” são parte do dia-a-dia deles. Religião, política, preconceito, terrorismo, direitos humanos, etc são temas de conversa de qualquer jovem aqui, que são muito mais politizados e conscientes que os jovens ocidentais. Mesmo para uma cabeça aberta e desprovida de preconceito como a minha, é difícil entender certas coisas, como a liberdade e o amor estarem condicionados à fé cega...

Não acredito que exista um povo mais pacífico no mundo que o brasileiro. Pacífico demais pro meu gosto, meio bobo até, mas hoje só quero elogiar este denominador comum entre a gente: um certo orgulho por ter nascido nessa zona gostosa que é o Brasil!

PS: 1) A foto é de mais uma comida de rua para atiçar a curiosidade do meu marido, que continua dizendo que vai comer tudo isso – o que vai durar apenas até a primeira diarréia! :)





2) Marina, o email 'e helenafurtado@hotmail.com. Manda ver! Beijos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Eid e o festival de dança…







Hoje (terça) finalmente a universidade volta a abrir e eu posso ter minha vida “normal” de volta. No último sábado acabou o Ramadan e domingo foi o Eid, que eles me explicaram como o Natal dos muçulmanos. Com certeza a comparação é falha, mas o Google e Wikipédia estão aí pra quem quiser saber mais. No domingo, as ruas de Jamia estavam lotadas, todos os homens vestindo túnicas longas e brancas, muita gente vendendo doce e balões em toda esquina, crianças por todas as partes, enfim, um ambiente festivo e alegre depois de um mês de privações em nome de Alá. Queria ter tirado fotos porque as ruas estavam realmente empolgantes, mas esqueci a câmera em casa.

Como são dois dias de Eid, ontem a universidade também estava fechada e aproveitei para ficar em casa estudando. De tarde, conheci um lugar lindo aqui em Delhi, o Purana Qila, uma espécie de teatro ao ar livre com construções realmente antigas e cercadas de verde. É um dos lugares turísticos mais visitados da capital e fomos lá porque ontem era o último dia do “Ananya Dance Festival”, que acontece uma vez por ano. Além do lugar lindo, o espetáculo foi interessante: dança e música Khatak, uma tradição do norte do país.

Estávamos eu, Patrick, Olga e Ajay (não sei se é assim que escreve), um casal muito bacana e multicultural amigo do Patrick. Ela nasceu nos EUA mas tem descendência japonesa e iraniana. Já ele é canadense filho de indianos. Ambos são antropólogos e estão em Delhi fazendo o trabalho de campo para o PhD que cursam em Yale University. Um casal super bacana, que já morou em vários lugares do globo e cheio de histórias pra contar.

Depois do espetáculo, fomos a um restaurante italiano em Defence Colony chamado Flavours. A comida é muito boa, nada de curry! Não me senti na Itália porque os pratos não eram fartos, mas me senti em um restaurante europeu qualquer. Comi frango recheado de queijo com vegetais. Mais legal que a comida, foi a companhia. Voltei pra casa feliz da vida por ter conhecido pessoas da minha idade tão bacanas...

Hoje tenho um milhão de coisas pra fazer depois de tantos dias sem Internet e com a universidade fechada. Entrevistas, visitas a redações, leitura, etc. Tenho que correr e aproveitar meus dias antes da chegada do Rodrigo na sexta da semana que vem (dia 27). Quero deixar tudo pronto para poder curtir uns dias de turista sem culpa.

sábado, 13 de outubro de 2007

1 mês em Delhi, quem diria!









Essa coisa de fazer balanço é normal no ser humano e hoje acho que poderia fazer uma boa análise sobre meu tempo e “evolução” aqui, mas não vou fazer balanço não! Vou poupar os que lêem o blog todos os dias e sabem tanto quanto eu o que rolou aqui nesses 30 dias. Deixo com o Rei: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”!

Ontem foi um dia bem gostoso aqui na capital. Passei o dia no centro, em Connaught Place, comprando minhas passagens para Goa e Bombay, que vou depois da visita do Rodri. Goa, no Sul do país, é a cidade de praia mais conhecida daqui e foi colonizada por portugueses. Me disseram que a arquitetura é bastante européia e que há bastante portugueses até hoje lá (nenhuma das duas coisas me atraem!!!), mas disseram também que as praias são lindas e “exóticas”, vamos ver. Duvido um pouco de quem usa essa palavra, porque na Europa eles adoram qualificar o Brasil e o Rio de exóticos e acho isso pejorativo. Na verdade eles querem dizer diferente, selvagem, estranho, caótico e usam “exótico” só pra ficar na onda chatíssima do politicamente correto.

Já os que conhecem bem a Espanha costumam comparar Delhi a Madrid e Bombay a Barcelona. E isso já é mais que um motivo para visitar a cidade mais “moderna” e cosmopolita da Índia para mim, que sou fã incondicional de Barcelona. Dizem que a possibilidade de cruzar com um artista de Bollywood é grande, ainda maia na agitada vida noturna da cidade, mas eu dificilmente vou reconhecê-los!

Depois de quase 2 horas numa agência de viagens (aqui tudo é difícil, lembrem-se!), almocei no Pizza Hut e ria sozinha da minha estupidez! Eu estou cansada de saber que “masala” é o tempero deles aqui que dá aquele “delicioso” toque de curry em tudo que eles fazem, ainda assim, pedi “Masala Lemonade” para provar. Perguntei só se era picante e a garçonete gentilmente disse que não, mas não perguntei se tinha curry! hehehe Tinha um gosto que eu nunca senti igual, tomei metade porque estava com muita sede, tentando sugar as partes sem tempero, e tirei essa foto pra mostrar a vocês a bebida. Eu só ria!

Tirei algumas fotos de CP, mas é difícil mostrar em fotos o que é o lugar. Na minha opinião, não é nada demais. É apenas uma herança dos britânicos onde os turistas gostam de ir gastar dinheiro e chamar de “centro da cidade”. Meus amigos indianos acham o fim da picada e acham que só “otário” gasta dinheiro comprando ali, mas a vida de turista é dura mesmo. Ao redor da praça, estão as lojas de marcas famosas e, embaixo da praça, fica um mercado de bugingangas, roupas falsificadas, CDs e DVDs piratas, etc. É imenso e bastante contrastante com as Puma, Adidas, Benetton, Reebok da parte de cima da praça...

Depois voltei pra casa, mas antes comprei 5 cervejas para passar a noite e esperar pela ligação da minha mãe, que comemorava ontem, junto com as amigas, 50 anos. Era uma festa das “Marias Gasolina” e foi lá na casa da vó Julita. Não queria estar de cara quando elas me ligassem de porre. Mas elas me ligaram cedo, completamente sóbrias, e as 5 cervejas não fizeram o menos efeito. Dormi pensativa, lembrando cada momento do último mês.
PS: Baby, sem castigo! A vida aqui já é muito dura!!!

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Coisas sobre o blog e uma ida ao salão



Taí uma foto minha para os curiosos que vivem pedindo...


Este blog tem me dado muitas alegrias! Parece mãe falando de filho, mas é verdade. Ontem, revisando os comentários, achei recados de pessoas que não tinha visto ainda, como uns da minha tia Fernanda, da minha prima Marluce, da minha amiga Let e do casal Edson e Ivana que tive o prazer de conhecer aqui. Mas a verdade é que recebo muito mais emails de gente que eu não fazia nem idéia de que estava acompanhando minha aventura aqui. Muito pelo mérito da minha mãe (a avó do blog! hehehe Só para aproveitar a onda do Mateus), que divulgou para todas as amigas na Grande São João Nepomuceno.... Ainda não sei, no entanto, porque as pessoas são tão reticentes em deixar comentários; estou comprovando que a maioria prefere a “privacidade” do email. Isso não é nenhuma “cobrança” não, ok? Cada um escreve onde e quando quiser, mas isso é um desafio para quem estuda e/ou ganha dinheiro com a Web de como tornar os blogs verdadeiros espaços públicos de conversa, informação e debate.

Outra coisa legal sobre este blog é que, mesmo escrito em português, sei que alguns “hispano-hablantes” têm lido e me escrito com freqüência, como minha sogra Flory, meus cunhados Roberto e Raquel e minhas amigas Indali e Marisa. Verdade que isso não seria possível se o blog estivesse escrito em russo, mas vale o esforço, o carinho e a curiosidade de cada um.

Então tá bom, vamos ao dia de ontem. Como sempre, universidade de manhã e leitura à tarde. Estou terminando de classificar as matérias do segundo jornal escolhido e ontem um jornalista do The Times of India enfim respondeu meu email sobre minha visita à redação. Oba! Acho que vou lá amanhã, porque a universidade estará fechada por ser a última sexta-feira do Ramadan. É feriado no meu bairro, mas não em Delhi.

De tarde fui ao Community Center para tentar achar o salão de beleza recomendado pelo Ivana. Foi fácil de achar, coisa surpreendente aqui, e me impressionou bastante! Primeiro, não deve nada em termos de instalação aos salões brasileiros ou espanhóis. Segundo, a maioria dos funcionários e dos clientes é homem. As “manicures e pedicures” aqui são homens! Longe de qualquer preconceito, eu achei estranho. Terceiro, a maneira como eles fazem a unha, depilam, fazem sobrancelha difere bastante da nossa. Eles não tiram cutícula, a sobrancelha é feita com uma linha (não me perguntem como, mas não é com pinça nem com cera) e, em qualquer tratamento, eles fazem massagem: no couro cabeludo, no braço, nos olhos (delícia!), na orelha, nos pés...

Saí de lá feliz da vida, sentindo-me uma princesa em Delhi (um pouquinho culpada, claro!)! Pra fechar o dia, fui tomar uma cerveja com o Patrick num bar novo (para mim) aqui mesmo no CC. Como sempre, conversamos fiado, morremos de rir e comemos com a mão. Antes de voltar pra casa, compramos pan masala, que é essa “trouxinha” verde aí da foto. O pan nada mais é que uma folha recheada com espécies doces e amargas que eles chupam aqui (não engolem) para refrescar o hálito (mouth freshener). Resumindo, é um tipo de chiclete natural indiano cujo sabor não é lá essas coisas não, mas a boca fica com um gostinho delicioso depois.


terça-feira, 9 de outubro de 2007

O trânsito e a impunidade em Delhi




Poucas coisas me metem tanto medo na vida quanto cruzar uma avenida em Delhi. Os motoristas simplesmente são guiados pela própria vontade (ou pressa) e não por um conjunto de leis como se espera numa das cidades mais populosas do planeta. Além de pouquíssimos sinais de trânsito (que também não garantem nada, porque poucos são respeitados), a cortesia e o senso comum são inexistentes nessa cidade. O negócio é ultrapassar o motorista ao lado e chegar rapidamente ao destino – não importando nenhum dano ao carro (todos aqui são amassados) ou, no caso dos transportes públicos, o negócio é “quanto mais gente pagando, melhor” – não importando se, para isso, alguns serão mortos no caminho.

Escrevo isso em meio a um grande debate na sociedade e na imprensa depois da morte de 7 pessoas atropeladas por um motorista de ônibus da empresa privada Blueline no último domingo de manhã. Além dos mortos, 10 pessoas foram feridas e ainda continuam hospitalizadas. Já comentei aqui que os ônibus não têm paradas “oficiais”; os motoristas simplesmente diminuem a velocidade em certos pontos (no meio da rodovia mesmo, não no acostamento) para que as pessoas saltem para dentro do veículo. É uma cena dantesca pelo perigo da situação.

O acidente do último domingo (cinco das vítimas eram mulheres e uma era uma criança de 5 anos) foi causado por um motorista que tentava se aproximar da calçada para que subisse no ônibus o maior número de passageiros. Ele simplesmente arremessou o veículo contra as centenas de pessoas que estavam esperando por transporte no bairro de Badarpur. Os que assistiram à cena e não foram mortos ou feridos sentaram o cacete no motorista irresponsável, que acabou parando no hospital! Mesmo completamente contra QUALQUER tipo de violência, quase não dá pra pensar em outro tipo de reação imediata que não seja dar uma porrada na cara de um sujeito que está dirigindo um ônibus E-NOR-ME e não “enxerga” uma quantidade absurda de pessoas na frente!!!!! Mais um dado: ele não tinha nenhum resquício de álcool no sangue.

Mas se você pensa que isso é um fato isolado, não é não! Neste ano, até o dia de ontem (terça), havia 93 vítimas fatais causadas por ônibus desta mesma empresa apenas. Em 2006, foram 122 e, em 2005, 160, segundo a “Traffic Police” local. Os números de multas recebidas pela Blueline durante o ano até o dia 30 de setembro impressionam. Vou citar alguns apenas: 4.555 multas por “direção perigosa”; 8.500 por “dirigir sem cinto de segurança”; 57 por “fumar enquanto dirige”; 10.500 por “transportar pessoas nas portas e do lado de fora do veículo”.

Os policiais de trânsito aqui têm poder para suspender por até um 1 mês os motoristas que infringem as leis sem necessidade de nenhuma consulta a superiores. No entanto, eles fazem vista grossa porque a Blueline é uma das mais poderosas empresas do país. O título da matéria no The Times of Delhi de ontem era simplesmente “Why Blueline devils don´t fear law”.

Talvez quem leia isso pode pensar nos trânsitos de Rio e São Paulo e fazer comparações, mas eu garanto que não existe comparação plausível! Depois de Delhi, cada vez que eu for ao Rio vou achar que estou no trânsito de Genebra!
PS: No jornal de hoje (quarta) vi que mais duas jovens foram mortas ontem por ônibus da Blueline!