Hoje eu vou falar da coisa que eu menos gosto aqui na Índia ou a única coisa que me deixa realmente indignada. Não são a sujeira nas ruas, a falta de respeito no trânsito, a poluição absurda, mas a maneira como as mulheres ainda são tratadas aqui. Estou longe de ser feminista (quero mesmo a desigualdade entre os sexos e que eles continuem mimando a gente!), mas ver as mulheres e meninas sendo tratadas como mercadorias pelos pais e depois como útero ambulante pelos maridos é revoltante.
Escrevo isso porque ontem li no The Times of India o caso de um pai que se casou com a filha de 15, com o consentimento da esposa e agora a garota está grávida! Vivendo em um vilarejo no norte do país, eles proibiram a garota de sair de casa para que os vizinhos não soubessem da gravidez. Mas foi inevitável, como toda mentira, e a notícia caiu como uma bomba no local. Tanto que a polícia teve que intervir para que os vizinhos não linchassem os pais. Também absurda é a maneira como ele convenceu a mulher a apoiá-lo: disse que tinha recebido uma mensagem do profeta Alá para casar-se com a mais velha das 3 filhas. Vou parar porque isso me dá náusea.
Com a globalização, os jovens estão tentando mudar isso e já se vê nas ruas garotas com roupas ocidentais, fumando, bebendo, trabalhando, mas ainda não muito poucas as que se atrevem, porque ficam “mal faladas” (êta coisa provinciana!). Aqui no meu bairro não é incomum ver essas meninas com burka apenas com os olhos descobertos. Minha companheira de apartamento, Lakshimi, é professora de História na universidade e me contou que um dia pediu a uma das alunas para ver seu rosto e a resposta foi: “não posso, professora, meu irmão está aí fora me vigiando e serei castigada se tiro a burka, mesmo sendo um pedido da senhora”. O sentido disso eu não sei.
A mesma Lakshimi, (esta sim feminista de carteirinha!) trabalha numa ONG que luta pelos direitos dos bebês do sexo feminino. Muitas nem chegam a nascer, porque os pais optam pelo aborto ao saber o sexo. E, segundo Lakshimi, as que nascem passam por situações tão absurdas como: comer o resto do que sobra das comidas dos irmãos (se não sobra, não comem); só os filhos vão à escola (a menina tem que ajudar nas tarefas domésticas); muitas jovens são trocadas por animais e casam-se antes dos 15 anos; trabalhar e estudar depois do casamento são coisas impensáveis, entre outras insanidades.
E não são apenas as indianas que sofrem não. Ser mulher e estar sozinha em Delhi é algo incômodo! Os homens te olham como se você fosse a última Coca-Cola no deserto, mesmo se você está com o corpo coberto. A pele branca aqui então é sucesso absoluto. A mulher pode ser muito feia, mas se for branquinha, não vai ter sossego. Se está com um ou mais homens num bar, táxi ou loja, por exemplo, os vendedores ou garçons simplesmente te ignoram, eles só se dirigem aos homens. Vida dura essa!
É uma sociedade extremamente machista e o pior é que, conversando com mulheres daqui, vejo que elas são resignadas e não têm esperanças de igualdade num futuro próximo. Melhor nem falar sobre as mulheres divorciadas e as lésbicas, que são simplesmente vistas e tratadas como lixo. Já os homens beijam-se, abraçam-se e andam de mãos dadas aqui, numa “adoração” mútua.
Bom, só para dizer que é muito bom ser mulher no Ocidente!!!!